Minha viagem aos EUA - O Declínio do Império Americano


by Rafael Rosa

Salve,

Aviso: essas são as minhas opiniões, baseadas nas minhas posições políticas, filosóficas e preconceitos. Ninguém é perfeito.

Depois de uma ótima experiência em San Francisco, fui à um evento em Las Vegas, a Interop, e foi então que tudo aquilo que eu pensava que não veria mais nessa viagem apareceu. Las Vegas é, para ser pouco contundente, a materialização da decadência. Ao chegar fui saudado por um monte de caça-níqueis no saguão do aeroporto, e daí em diante foi ladeira a baixo. Todas aquelas imagens de pessoas rosadas, extremamente gordas e bizarras que algumas pessoas me contavam que viam nas viagem e começava a imaginar serem exageros começaram a aparecer, e em grandes quantidades.

Todo o mau gosto que pensei ser exageros dos filmes sobre a cidade se revelaram reais, tudo naquela cidade é falso, da grama à Estatua da Liberdade à Torre Eiffel que tem na Strip, não tem um centímetro daquele lugar que se pareça com um lugar habitado por pessoas reais. Quer dizer, até você começar a reparar nas pessoas que trabalham lá. Sabe aquela cena de filme de cassino, onde o protagonista entra num salão incrivelmente bem decorado, cheio de luzes e com garçonetes lindas e sorridentes trazem incríveis drinks coloridos em taças de martini para ele? Pois bem, as luzes estão lá, em dose dupla, todo o resto é falso.

Dizer que a decoração é brega é ser bonzinho, exceto nos cassinos mais novos e caros, como o Aria e o Ceasar’s Palace, todos os outros tem uma decoração que remete aos anos 70 (ou antes) e sempre são extremamente exagerados. Quem mora em São Paulo se habituou a não saber o que é cheiro de cigarro a não ser que seja fumante, e não vê mais ninguém fumando em restaurantes ou bares, pois bem, não é isso que acontece em Vegas: é permitido fumar na maioria dos lugares. Não sou super anti-tabagista, mas lá é ridículo, muita gente fumando a toda hora, parece uma balada sem fim, e o cheiro, apesar de ser menos intenso do que esperava, está em todo lugar. Além do cigarro, muita bebida, Las Vegas é um dos pouco lugares onde é permitido beber na rua, mas ao invés de long necks e latinhas de cerveja, você vai ver dezenas de pessoas com copos plásticos de meio metro com dakiri, que pelo que entendi é um tipo de raspadinha, em todos os lugares, e tem gente que anda com copos desse negócio que tem 1 metro.

Não dá para ficar longe dos cassinos, afinal, a cidade foi construída para eles. Tem caça-níqueis em todos os lugares, dos mais variados tipos e temas, de homens das cavernas à Barbie e Star Wars, é bizarro. Os jogos clássicos, Blackjack, Roleta, Craps (Dados) e Poker também estão por toda parte, e existem versões eletrônicas deles. Eu joguei um pouquinho para saber como é, e fico feliz de não ter ficado muito tempo, é um negócio bem viciante, o dinheiro vai embora fácil e rápido, se você não se cuidar e limitar a quantidade de dinheiro que carrega, pode fazer grandes estragos.

Uma coisa que me deixou bem mal nos cassinos foi ver as pessoas que estavam por lá. Você via grupos de estudantes em alguns lugares, parece que era a época do Spring Break, e vira e mexe encontrava um grupo de rapazes que devia estar fazendo a despedida de solteiro de alguém e também grupos de moças com grinaldas fazendo a mesma coisa. Mas entre essas pessoas bêbadas e aparentemente felizes, outras dezenas, ou centenas, de velhinhos jogando sem parar. Eles se sentam nos caça-níqueis, colocam uma espécie de cartão de crédito na máquina que tem um cordão preso à camisa, pedem um drink, acendem um cigarro e ficam por lá horas a fio, olhando os números girarem sem parar, apertando os botões como se estivessem hipnotizados. Acho que o pior foi ver uma cena dessa com um velhinho numa cadeira de rodas e um tubo de oxigênio do lado, acho que ele só não estava fumando, o resto era igual. Mortos vivos gastando sua aposentadoria, muito triste.

As garçonetes dos cassinos definitivamente não se parecem com as dos filmes, em geral já passaram dos 40 e sua beleza ficou num passado distante, mas infelizmente as roupas curtas não. Os crupies não são pessoas simpáticas e conversadoras, na verdade são bem ranzinzas, o tempo todo parecem que estão doidos para ir para casa fazer outra coisa, é nítida a falta de ânimo, e por algum motivo que desconheço, a maioria parecem ser imigrantes asiáticos, tive essa impressão porque eles falavam entre si em alguma língua incompreensível e, bem, eram asiáticos.

Além das línguas orientais, muito espanhol, os outros garçons e atendentes em geral eram hispânicos e também falavam entre si em espanhol, aliás, essa é a regra em todos os lugares que fui. Em San Francisco fui a uma área que se chama Mission, e quando andava pela principal avenida do lugar, de repente, sumiram todas as placas em inglês e tudo passou a estar escrito em espanhol, parecia que tinha entrado no México, foi uma experiência muito estranha. Muita gente fala inglês com um sotaque pesado, e você vê influências dos imigrantes em todo lugar, aquela coisa Wysteria Lane eu só vi quando fui ao Facebook, que fica em Palo Alto, e aí sim vi aquele esquema de suburbios dos filmes, mas mesmo assim, gente falando espanhol em todos os lugares.

Na Strip, o que me chamou a atenção também foi a quantidade de propaganda de “scorts”. É comum andar pela rua e ver uma caminhonete passar com um poster gigante de mulheres de bikini, com telefones e frases ofercendo “companhia” para quem quiser. Parece que em Vegas esse tipo de atividade é permitido, mas, como eles são uma sociedade muito “avançada e tradicional”, proíbem a prostituição. Ou seja: ser scort é ok, mas oficialmente é só para oferecer companhia, apesar de na prática tudo acontecer como em todos os lugares do mundo. Além das caminhonetes, dezenas de grupos de pessoas ficam oferecendo cartões com os números de agências e garotas no meio da rua, é bastante constrangedor, especialmente porque eles fazem isso no meio das famílias que passeiam com seus filhos no procurando a próxima loja de doces. A hipocrisia impera.

Quando visito cidades novas, gosto de andar a pé e em transporte público, especialmente metrô, é um ótimo jeito de ver os “nativos no seu habitat natural” e entender melhor como seria viver no lugar, e ao fazer isso notei que nos EUA há muito mais pessoas pobres do que imaginava. Nunca tive ilusões de que o tal “primeiro mundo” fosse um lugar perfeito, vi isso pela primeira vez quando morei em Paris, e os EUA não são exceção, aquela idéia de que lá tudo é perfeito e que é um país onde todos são ricos é uma ilusão dos seriados e filmes americanos, o povo que trabalha nos empregos nada chiques é pobre como o pessoal que faz os mesmos serviços aqui, para variar, o país é ótimo para quem tem grana.

Também vi muitos moradores, alguns lugares de SF e LA eram bem complicados, mas pelo menos eram reais, Vegas tem uma área mais antiga que é bem estranha, tem casinos antigos, mal conservados, onde o clima de decadência é ainda pior, e o povo jogando sem parar tem um ar doentio. O lado B é real, o lado A é a Disneylandia: tudo falso.

No próximo post vou falar sobre as coisas boas que descobri por lá.

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